Ele - Part 6



Chegou a casa numa lástima, parecia um trapo, não havia músculo que lhe não doesse, despiu-se lentamente e dirigiu para a casa de banho onde tomou um duche bastante lento. Tinha a cabeça a latejar e quando se deitou na banheira em fracções de segundos adormeceu. Quando acordou sentiu-se muito mais relaxada mas quando olhou para a água ficou confusa pois esta encontrava-se tingida de vermelho, então lembrou-se que talvez se tivesse magoado durante a queda, procurou nos pés, nas pernas nos braços e nada. Quando olhou para as mãos viu enormes arranhões e quando se olhou ao espelho viu o queixo rasgado. Não tinha dado conta de nada daquilo e quando voltou para o quarto viu o vestido todo sujo e nem reparara. A dor interior sobrepunha-se a tudo o resto e quando deu por si, tinha a toalha que a fica ensopada, o sangue não parava de pingar do queixo. Quando se olhou ao espelho viu que a ferida estava muito feia e pensou que o melhor seria ir ao centro de saúde. Assim fez.
Auri encontrava-se numa angústia deprimente por aquilo o que acontecera com Hélio mas, no fundo, aquilo que estava a sentir era já um acumular de sentimentos do passado. A mensagem que receberá, há uns dias atrás estava a perturbá-la imenso e toda aquela situação com H estava a entristece-la ainda mais.
Tinha sido o ex-amigo colorido dela que lha mandou, amigo colorido porque nunca chegaram a ser namorados ou algo parecido. Nunca o foram porque ele nunca deu grande importância aos sentimentos de Auri mas dava-lhe a entender que poderiam a vir a ser algo mais no futuro. Eram da mesma escola, da mesma turma, da mesma cidade, faziam tudo ou pelo menos quase tudo, juntos, eram os melhores amigos e os melhores amantes. Auri, nutria um sentimento tão forte que ele nunca o soube aproveitar e desperdiçou tudo num segundo. Ela só queria esquecê-lo e, por isso, desapareceu. Foi estudar para longe, mudou de número, apagou a conta do Facebook e nunca mais pensou nele, até aquela mensagem. Para além de ela não ter o número dele guardado na memória do telemóvel, sabia-o de cor, por isso, sabia que era ele. Auri, não respondeu à mensagem mas quando surgiu a segunda começou a ficar preocupada pois essa dizia “Irei encontrar-te e nunca mais nos vamos separar”.
                                                                       *
Hélio tinha-lhe mandado mensagens confuso com a reacção dela ao beijo e via-se que ele estava bastante consternado, no entanto, ela não entendia o porquê daquelas perguntas quando ele sabia perfeitamente que aquilo que ele fez foi errado tendo namorada.
Pelos vistos ele não conseguia entender o porquê de Auri ter feito o que fez. Foi então que ela lhe revelou o porquê da sua reacção dizendo-lhe que sabia da existência da namorada.
Houve um longo compasso de espera e veio a resposta e Hélio disse-lhe que aquilo tudo não passava de um grande mal-entendido.
“Claro, que era um mal-entendido e eu nem tenho olhos na cara”, gritou para o telemóvel quando recebeu a mensagem de Hélio. Depressa aquela cólora se desmoronou e se transformou num grande embaraço. Hélio acabara por lhe dizer que aquela moça com quem Auri o viu era, afinal, sua… sua prima. “ O QUÊ?”, explodiu em lágrimas de raiva. “PRIMA? PRIMA, HÉLIO”, berrou consigo mesma. Auri, não conseguia acreditar no que lera, e começou a sentir um grande desespero.
Ela sentia-se mal. Primeiro não foi capaz de o confrontar com a realidade, segundo, foi acreditar num boato que lhe contaram a respeito dele e terceiro para piorar ainda as coisas sentia-se uma estúpida por se ter deixado levar pela raiva e lhe ter pregado um estalo.
“Só espero que ele me perdoe”, foi o primeiro pensamento que lhe ocorreu. Hélio pediu-lhe para se encontrarem pessoalmente para lhe explicar o que estava acontecer. Como já eram onze horas da noite decidiram combinar para amanhã a “explicação”. Auri, sentia-se tão mas tão envergonhada que só lhe apetecia enfiar a cabeça debaixo dos lençóis e não sair de lá até que se esquecesse de tudo.
Sentiu uma ponta de alívio quando ele se despediu dela com uma mensagem de “Até amanhã. Beijos” e por alguns minutos pode sentir o seu cheiro, o seu toque mais uma vez, tão perto dela. Auri despediu-se também com “ Beijos… e desculpa” esperava que aquele pedido de desculpas começasse a atenuar a tensão.
                                                                       *
Seguia-se o fim-de-semana e logo pela manhã, Auri mando-lhe uma mensagem:
 - Bom dia, H. Compreendo que não me queiras falar, depois do que aconteceu, mas gostava muito de estar contigo, hoje à tarde para podermos conversar. – tentou ser o mais directa e inocente possível.
A resposta surgiu duas horas depois.
 - Olá Auri. Nunca disse que não te queria voltar a falar tanto que fui eu quem disse para nos encontrarmos. Hoje à tarde parece-me bem. E sim, precisamos mesmo de conversar.
Quando recebeu a mensagem explodiu de alegria sentia, no fundo, que ele queria estar com ela. Decidiram encontrar-se na esplanada do parque da cidade e, assim foi. 
Auri, entrou outra vez no stress da escolha de roupa, mas desta vez foi rápida, optou por uns calções de ganga clara, um top azul-bebé e umas sandálias rasteiras pretas ainda tentou disfarçar com maquilhagem o queixo mas era impossível.
Estava nervosa quando chegou ao parque e o viu já sentado numa das cadeiras da esplanada. Estava de calções de ganga e com uma t-shirt azul escura. Os óculos de sol e as havaianas davam-lhe um ar descontraído e atraente.
Quando a viu, ele levantou-se logo. Estava com uma expressão neutra e não disse uma palavra como quem esperasse que Auri dissesse algo em primeiro lugar, ela olhou-o e já com os olhos a encherem-se de lágrimas e com o pressentimento que o nó na garganta a não deixa-se falar aproximou-se dele e disse, engolindo em seco:
 - Hélio – e com o queixo já a tremer disse-lhe – eu amo-te.

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