Ele - Parte 13



Às duas da manhã, acordou violentamente com o seu próprio grito, o pesadelo que estava a ter acordou a casa toda, estava alagada em suor e uma dor imensa na zona abdominal. Hélio foi o primeiro aparecer:
 - Aurora? – Gritou – Está tudo bem?
Não estava. Auri, só teve tempo de sair da cama, correr para a casa de banho e cair de joelhos ao pé da sanita para mais uma descarga ensanguentada. A mãe do Hélio foi quem se seguiu.
 - Aurora, querida? Como estás? – Falando para Hélio – Vai chamar a ambulância.
 - Não. – pediu com a voz falida – disseram no hospital que isto iria acontecer, pelo menos mais uma ou duas vezes.
 - Tens a certeza? Se for preciso nós levamos-te.
 - Não, obrigada. Vou tomar mais um comprimido e beber um chá para acalmar o estômago.
 - Como queiras, o Hélio vai fazer-te o chá. Toma um banho, estás completamente encharcada, minha querida.
 - Obrigada, Helena.
Aurora entrou no poliban e deixou a água semi fria a correr pelo corpo, tinha a cabeça a latejar e um sabor terrível na boca. Lavou os dentes e vestiu uma camisola e uns calções que tinha trazido. Hélio entrou com o tabuleiro com um bule de chá e umas bolachas secas. Depois de toda aquela acção o cansaço começou apoderar-se do corpo de Auri.
 - Hélio, obrigado por tudo. – Abraçou-o.
 - Vou ficar contigo aqui para me certificar que ficas bem.
 - Não precisas de ficar, eu já estou bem.
 - Não quero ouvir nada. Eu vou ficar na poltrona que é bastante confortável.
 - Nem pensar. Podes ficar aqui comigo, na cama. Eu não me importo.
Ele sorriu-lhe, deu-lhe um longo beijo na testa e Auri deitou a cabeça sobre o peito de Hélio, acabando por adormecer.
                                                           *
Passado uma semana, Auri já se encontrava completamente recuperada e estava no quarto arrumar as suas roupas quando o pai do Hélio bateu à porta.
 - Olá Aurora. Posso entrar?
 - Claro. – sorriu-lhe. – Não sei como é que hei de agradecer a vossa generosidade.
 -Não precisas de agradecer. – Com um tom mais sério, continuou. – Aurora, preciso de falar contigo sobre um assunto muito importante. – Sentou-se no fundo da cama, cabisbaixo.
 - Passa-se alguma coisa? – Começou a ficar preocupada.
 - Agora não mas passou-se há alguns anos atrás, há três precisamente.
 - Não estou a perceber.
 - Eu não te reconheci logo mas depois de uma longa pesquisa verifiquei que és tu, Aurora.
  - Não entendo onde é que quer chegar. – Começava a ficar preocupada.
 - Ainda nem encontrei as palavras certas para te dizer isto. – Respirou fundo e continuou. – Aurora, fui eu quem matou o teu irmão.
 - O senhor o quê? – Disse estupefacta.
  - Há três anos eu era camionista, hoje em dia, já não o sou pois o acidente fez-me perder a carta de condução, estive 1 ano preso e dois anos a fazer serviço comunitário e, por consequência, tive de procurar outro emprego.
Auri, nunca chegara a saber quem tinha sido o homem que matou o seu irmão, a família tinha-lhe ocultado e passado aqueles anos todos ela estava em frente ao assassino.
 - Antes do julgamento, fui ver-te várias vezes ao hospital para me certificar que estavas viva e a recuperar mas nunca me aproximei demais. Nunca mais me consegui recompor, não imagino a dor que passaste mas ainda hoje acordo durante a noite com o que aconteceu e, não, não estou a dizer-te isto para que tenhas pena de mim, aquilo que fiz não tem perdão mas espero que um dia consigas olhar para mim sem me odiares.
 - Julgamento? Eu nunca soube de nada disso. – A raiva estava a começar apoderar-se dela. - A sua família sabe disso? A sua mulher e o seu filho já sabiam quem eu era?
 - Sim, a Helena sabia. Ao Hélio nunca fomos capazes de dizer. Nunca pensei que o destino fosse de tal maneira macabro ao ponto de te trazer para a minha vida desta forma.
 - Nunca foram capazes de dizer o quê? - A voz de Hélio irrompe do nada.

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