Ele - part2
Cruzaram olhares intensos, naquele dia. Porém, a timidez de
Auri quebrou aquela "conexão ". A consciência dela pedia-lhe para o
evitar ao máximo, pois, podia começar a notar-se o interesse por ele, em todo o
caso, não ia arriscar não poder corresponder aqueles calorosos olhares.
Auri tinha aquele ar atrevido mas carinhoso. Bom, dizer que tinha ar era
dizer pouco ela era mesmo atrevida para as pessoas, por vezes, era intransigente,
mas não se importava muito, era isso que ela mais gostava nela. Ela
era capaz de falar com a escola inteira, mas, menos com ele. Estupidamente
irónico, mas, a consciência matava-a!
Mais um dia acabara. Decidiu parar um pouco no jardim da
escola e recomeçar a leitura naquele estúpido livro que lhe tinham emprestado.
Livro de fantasia. Ela tinha de ler e começara por algo que lhe falaram de que
iria adorar. O início estava a ser ético e entediante. Foi salva pelo escurecer. Já se via, ao longe, algumas casas com as luzes acesas.
Estava a subir a rua para apanhar o autocarro quando deu com
o coração a martelar-lhe no peito. Era ele. Estava sentado na paragem. "Ó
meu Deus", penso ela. "E agora?!". " Não acreditou, que ele
tem na mão o mesmo livro que eu". Não parava de falar consigo mesmo e as
caretas que fazia para consigo era algo de rir à farta. "Ok", penso
ela. "Vou falar com ele, não tenho nada a perder".
-Boa leitura. Disse-lhe...
Apeteceu-lhe dar uma estalada a si própria mal acabou de
dizer estas palavras. Quando olhou ele estava de fones e a respirou
fundo e a pensou, que, provavelmente, ele não a ouvira.
Mas, para seu grande agrado ele retribui-lhe com um sorriso
e agradeceu. O mundo desabou quando ouviu pela primeira vez o som da
sua voz na sua direcção. Tinha a certeza que se fosse um cubo de gelo
naquele momento estava a derreter.
O mais incrível é que apanharam o mesmo autocarro. E ela,
simplesmente, não acreditava naquilo. Era tudo bom demais para ser verdade. Ele,
ali, junto dela, a 30 centímetros e quase que lhe conseguia ouvir os batimentos
cardíacos. Até respirou fundo para inalar o seu cheiro. Ela queria guardar tudo
o que conseguia o mais rapidamente possível não, fosse aquilo tudo ser um sonho.
Cheirava a cigarros, menta e... Algo doce… que não soube decifrar.
Lembrasse de ele lhe ter perguntado o nome, mas,
vergonhosamente não decorou o dele. O som da sua voz era de tal forma perturbador
e, ao mesmo tempo, delicioso que se deixou hipnotizar.
Para tornar tudo ainda mais irreal, ele pediu-lhe o número,
para falarem do livro. Apeteceu-lhe rir. O barulho no autocarro era ensurdecedor
e tiveram de trocar telemóveis. Guardou-o. E devolveu-lhe sorrindo. Uma
travagem vinda do infinito fez com que entrelaçassem os corpos e foi ai que as faíscas
invisíveis lhe saltaram.
Já não conseguia descrever o que sentia, quando saiu do
autocarro. As pernas tremiam-lhe, tinha um sorriso parvo nos lábios e o coração batia descompassadamente, ainda não
conseguira apagar aquele aroma da sua memória
- Espero encontrar-te em breve. Foi a mensagem que a fez
palpitar de alegria.
E assim, ficou, parada na rua a contemplar as primeiras estrelas.
A.
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